Paulo Guilherme | PALHAÇO COMPANHIA

Nasci em 1986. Curiosamente, foi também o ano em que nasceu a personagem do Palhaço Companhia, embora o artista já andasse há muito a construir o seu caminho.

Na minha infância, havia um ritual sagrado: chegar da escola, ligar a televisão e não perder um único episódio do Batatoon. Em muitas tardes de solidão, o Companhia fez-me literalmente companhia. 

E, como tantas crianças da minha geração, dava por mim a perguntar: quem seria a pessoa por detrás daquela personagem de voz irreverente, cabelo espetado como a “Torre Eiffel” e um nariz de “Pinóquio mirrado ao contrário”?

Só muitos anos depois descobri que o Companhia, era apenas uma pequena parte da história de Paulo Guilherme.

Um artista multifacetado que, vindo de uma família sem qualquer tradição circense, acabou por integrar um dos mais prestigiados circos internacionais, o Royal London Circus, com o qual fez uma tournée de três anos em vários países da Ásia. 

Foi precisamente durante essa experiência que recolheu testemunhos de timorenses refugiados na Indonésia, numa altura em que Timor-Leste vivia um dos períodos mais dramáticos da sua história. 

Esses depoimentos acabariam por ser transmitidos em noticiários portugueses e internacionais, mostrando um lado do artista que poucos conhecem: o do homem atento ao mundo e às pessoas.

Mas a sua história não fica por aí.

Foi campeão de mini-trampolim pelo Lisboa Ginásio Clube, homem-estátua em grandes eventos, participou no maior desfile da Expo 98 e conheceu como poucos os bastidores da noite lisboeta, quando o Bairro Alto e o Frágil eram palco de uma geração de artistas, criativos e sonhadores.

Depois veio a televisão. O sucesso estrondoso dos programas infantis, a fama, o carinho de milhões de crianças… e também os momentos mais difíceis. Como era viver na pele de uma personagem tão marcante? Terá vivido na sombra do Batatinha? Como eram, afinal, os bastidores daquele fenómeno que marcou uma geração?

Hoje não é apenas uma entrevista. Hoje é como fazer trapézio sem rede, uma conversa longa numa viagem pela vida de um homem que me acompanhou na infância e que, sem o saber, também ajudou a moldar a minha identidade artística.

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